terça-feira, 12 de junho de 2012

“ (…)
- Ainda bem que falou em seguros e empréstimos. Como se processam relativamente a pessoas que se encontram a realizar tratamento para doença oncológica ou já estiveram?
(depois de muito palavreado, hesitação e enredo, decidiu-se pela verdade)
-Diga-me uma coisa se tivesse muito dinheiro ia emprestar a uma pessoa a morrer?
-Sabe que a maior causa de morte em Portugal são as doenças do aparelho circulatório certo? Enfartes, acidentes vasculares cerebrais, a hipertensão (não tratada e que poderá contribuir para as outras duas), etc?
(Não se dignou a me responder. E fez este belíssimo comentário)
- Se o seguro lhes pegar, a nós não nos importa. Queremos é o empréstimo pago. Nós é que não ficamos a arder. Mas também para que é que eles querem casa? Vão morrer e vão. Então mas e o seguro para si, ou um empréstimo?
- (…) Bem, mas quanto ao empréstimo e/ou seguro, deixe lá. Sabe que eu posso sair à rua e morrer atropelada. Longe de mim querer que o banco fique a arder, não vá os papéis do seguro ainda não serem válidos, pelos minutos que possuí antes de morrer.  

[Conversa numa agência bancária - dia 12/06/2012]
[Fui alertada para esta temática através de um questionário em particular. Na qual a pessoa me confidenciou que lhe havia sido recusado empréstimo ou seguro visto possuir historial de doença oncológica. 
Não me irei pronunciar quanto ao meu ponto de vista nesta temática, visto que este se encontra, creio eu, explícito para quem me conhece.  Só refiro que a doença oncológica se está a tornar cada vez mais uma doença crónica (que se prolonga no tempo) e que morrer, é certo para todos nós. Posto isto, a pessoa que me confidenciou submeteu-se aos tratamentos há cerca de 13 anos.Talvez a deva apresentar ao Sr. da agência.]

terça-feira, 10 de abril de 2012

"O homem é o único ser vivo que pensa na sua própria morte. Apenas ele têm consciência dos seus limites existenciais e do termo do seu ciclo biológico como ser único e irrepetível. Mas a morte em si própria é um insondável mistério, porque de facto ninguém sabe o que é morrer nem o que consiste a sua própria morte. Estamos familiarizados com a morte dos outros, dos amigos, dos nossos pais; assistimos à morte de outros seres vivos e percebemos que se fecha em cada morte um ciclo individual que se repete indefinidamente. Mas essa participação na morte dos outros, por mais íntimos que nos sejam aqueles para quem a vida acaba, é apenas um aspecto absolutamente exterior à morte, uma imagem, uma ideia, um conhecimento, um afecto. É um acto de vida.
Na realidade a morte é verdadeiramente um mistério que não se conhece. Porque ninguém a experimentou e porque no exacto momento em que ela ocorre já não é possível conhecer. O sujeito deixa de existir. As experiências de "quase morte" são evidentemente experiências de vida e como tal não podem deixar de ser tomadas. Estar morto é não estar. Os cadáveres não são vida. Não são ninguém. São apenas os restos do suporte biológico que necessariamente estão destinados à desagregação. Assim, a morte é impensável como tal. Está para além dos limites da existência; é a radical alteridade da realidade experimentável. "

Alexandre Laureano Santos